Há alguns anos, comecei a escrever um livro chamado "Síndrome de Frankenstein - Combatendo o medo da Tecnologia", baseado em várias conversas com pessoas leigas em tecnologia.

A ideia principal era esclarecer os verdadeiros riscos de várias tecnologias, como celulares, forno de microondas e outras. Escrevi alguns capítulos e a ideia ficou na gaveta. Decidi agora publicar neste blog os capítulos já escritos.

Caso seja do interesse, posso escrever outros. Basta mandar sua pergunta usando o formulário ao lado. 


O que é Síndrome de Frankenstein?

O termo "Síndrome de Frankenstein" foi cunhado no livro de mesmo nome: “The Frankenstein Syndrome: Ethical and Social Issues in the Genetic Engineering  of Animals”, de Bernard E. Rollin, em 1995.

Nele, o autor descreve os problemas éticos e sociais envolvidos em engenharia genética de animais. Um assunto polêmico desde o descobrimento do DNA que se arrasta até hoje.

Mas, particularmente, ele descreve a reação das pessoas quando confrontadas com uma nova tecnologia. Basicamente, esta reação é de suspeita, hostilidade e protesto. O medo é que o “monstro” criado acabe matando não apenas o seu criador, mas também inocentes. A noção geral, assim como a moral do livro de Mary Shelley, é de que há certas coisas que o ser humano não deveria fazer.

O sucesso estrondoso do livro, escrito pela jovem autora de apenas 20 anos, mostra que o mito que ela descreve ressona com um sentimento real. Todos nós achamos que há certas coisas que o ser humano não deveria fazer; a frase é incontestável. Mas este medo é justificado pelo fato de que a nova tecnologia viola as leis de Deus e/ou da Natureza. O monstro sair do controle é uma punição por termos tentado “ser como Deus” ou “violentar a Natureza”.

Existe medo das novas tecnologias no mundo atual?

Novas tecnologias não surgem para desafiar leis divinas ou naturais.

Elas vem resolver velhos problemas de novas formas ou novos problemas. O fogo foi uma nova tecnologia, e a reação à ele deve ter sido suspeita, hostilidade e protesto. Sem dúvida, muitas fogueiras foram apagadas por estarem contrariando a vontade divina de que a noite fosse escura.

No livro original, Mary Shelley escreve que “Nada é mais doloroso para a mente humana do que uma mudança grande e súbita”. E nada é uma mudança mais súbita e grandiosa do que uma guerra mundial.

Na década de 50, o futuro era lindo e automatizado. Os aparelhos eletrônicos começavam a popular as casas, a ideia de um robô que fizesse todo o trabalho doméstico e das indústrias começava a apontar para o Novo Amanhã, onde todos teriam tempo para o lazer. A energia nuclear se mostrava como a solução para criação de energia quase do nada. A empolgação era tamanha que maquiagens e selos foram feitos de material radioativo. O blush tornava seu rosto rosado, o selo brilhava no escuro. Marie Curie levava uma pedra radioativa no bolso para mostrar aos curiosos os resultados de seu trabalho.

Então acontecem a bomba atômica e o acidente de Chernobyl, que marcam, talvez para sempre, a energia nuclear como perigosa e mortal. Batom e selos radioativos resultam em câncer de pele e língua que resultam em morte e deformação.

 Os bombardeamentos atômicos das cidades de Hiroshima (esq) e Nagasaki (dir) foram dois bombardeios realizados pelos  Estados Unidos  contra o  Império do Japão  durante os estágios finais da  Segunda Guerra Mundial , em agosto de 1945. Foi o primeiro e único momento na história em que  armas nucleares  foram usadas em guerra e contra alvos civis.

Os bombardeamentos atômicos das cidades de Hiroshima (esq) e Nagasaki (dir) foram dois bombardeios realizados pelos Estados Unidos contra o Império do Japão durante os estágios finais da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945. Foi o primeiro e único momento na história em que armas nucleares foram usadas em guerra e contra alvos civis.

 Chernobyl - O  desastre de Chernobil  foi um acidente nuclear catastrófico que ocorreu em 26 de abril de 1986 na central eléctrica da Usina Nuclear de Chernobil (então na República Socialista Soviética da Ucrânia). Uma explosão e um incêndio lançaram grandes quantidades de partículas radioativas na atmosfera, que se espalhou por boa parte da União Soviética e da Europa Ocidental. 

Chernobyl - O desastre de Chernobil foi um acidente nuclear catastrófico que ocorreu em 26 de abril de 1986 na central eléctrica da Usina Nuclear de Chernobil (então na República Socialista Soviética da Ucrânia). Uma explosão e um incêndio lançaram grandes quantidades de partículas radioativas na atmosfera, que se espalhou por boa parte da União Soviética e da Europa Ocidental. 

Incapazes de compreender a tecnologia, e observando os efeitos bárbaros pela mídia, o medo toma conta. As décadas seguintes vão amargar um profundo desânimo com a ciência. Apelos de retorno à natureza, rejeição à tecnologia vão ganhando espaço. A noção de que tecnologia mata se torna a regra.


A única ferramenta que pode eliminar o medo é o conhecimento.


O que aconteceu em Hiroshima e em Chernobyl foram tragédias, tornadas possíveis pela tecnologia. Mas tecnologia é uma ferramenta, não um monstro com vontade própria. Sem a radioatividade, também não teríamos Raios-X e tomografias computadorizadas, que salvam milhares de vidas por ano.

O verdadeiro desafio é controlar a tecnologia, através de regras de conduta, de ética, de padrões de segurança e controle público e governamental. Para isto, é preciso que todos, todos mesmo, entendam a tecnologia.

Eu poderia dizer aqui que sou especialista neste assunto, e que você deveria acreditar em mim. Talvez funcionasse, mas confiar em opiniões de autoridade é muito volátil. Amanhã, outro especialista pode falar o contrário, e você vai mudar de ideia. Mas se você entender, de verdade, o que esta tecnologia faz, eu não preciso te convencer, você terá sua própria opinião, consciente, embasada. E este é o objetivo destes capítulos.

Podemos observar este medo da tecnologia de várias formas. Em 2005, eu orientei uma pesquisa [1] que avaliou a opinião de alunos de graduação sobre o telefone celular. Na época, existiam no Brasil em torno de 86 milhões de celulares, como o gráfico abaixo mostra.

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As perguntas da pesquisa eram bem simples: 35 pessoas de cada turma respondiam sim ou não às perguntas:

1. “Você acha que telefone celular faz mal?”

2. “Você usa telefone celular?”.

Foram avaliadas as respostas de alunos de graduação da área de Ciências Exatas (Engenharia de Telecomunicações), Ciências Biológicas (Fisioterapia) e Ciências Humanas (Administração).  Os resultados estão na figura a seguir.

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Embora, em média, quase um terço das pessoas acreditasse que o telefone celular faz mal, este índice é menor na Engenharia (20%), maior na Administração (26%) e bem maior na Fisioterapia (34%). Da mesma forma, todos os estudantes de Engenharia usavam celular (100%), enquanto este número era menor na Administração (97%), e bem menor na Fisioterapia (91%) (sim, existiu uma época em que nem todo mundo tinha celular).  

Estes resultados simplificados apontam para a ideia de que o conhecimento sobre o celular pode diminuiu o medo. Este é o objetivo deste livro. Oferecer à você informações claras, precisas e cientificamente corretas, sobre celular, câncer, e novas tecnologias, para que você possa concluir se deve ou não parar de usá-las, já que elas podem fazer nossa vida muito melhor.

E, se outro especialista trouxer novas informações, você poderá ponderar novamente sobre o assunto, e, quem sabe, até mudar de ideia.

Este é o grande dom da ciência: evoluímos com cada nova informação.

Semana que vem: "Síndrome de Frankenstein 2: Telefone celular causa câncer?"


Referências:

[1] Raquel Cristina Rodrigues Ferreira. Estudo dos Efeitos Biológicos de Campos Eletromagnéticos de Telefones Celulares. 2005. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Engenharia de Telecomunicações) - Centro Universitário de Belo Horizonte. Orientador: Ana de Oliveira Rodrigues.

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“Existem certas coisas que o ser humano não deveria fazer”
“Frankenstein”, Mary Shelley, 1818

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