Privacidade no mundo digital é uma das grandes preocupações de pais e educadores. E com bons motivos. Expor as crianças neste mundo enorme cheios de desconhecidos pode ser perigoso e sentimos que é nosso dever avisar as crianças dos riscos que correm.

Infelizmente, um artigo recente da Consumer Report [1, em inglês] mostra que avisar as crianças e adolescentes não funciona, e oferece algumas sugestões do que pode funcionar. Neste post, discutimos estas estratégias de Inteligência Tecnológica.


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Foque no que interessa às crianças

Ao contrário do que imaginamos, crianças se importam muito com sua privacidade. Só que elas se importam com um tipo de privacidade diferente dos adultos.

Enquanto para o adulto postar uma foto de roupa de banho ou com o uniforme da escola é expor sua privacidade, para as crianças uma foto delas quando bebês no Facebook dos pais pode ser muito mais invasiva.

O importante é perceber que as crianças e, principalmente, os adolescentes, se importam muito mais com o que o grupo delas pensa do que com o que estranhos podem pensar. Postar fotos e informações onde elas reafirmam sua independência e desafiam os pais é mais importante do que garantir a própria segurança.

Neste caso, elas estão corretas. As chances de sofrerem um assédio ou sequestro porque postaram uma foto de uniforme são realmente muito menores do que as chances de serem rejeitados pelo grupo ou sofrerem bullying por não participarem do que a maioria faz.

Por isto, a melhor estratégia é definir regras para todos, e modelar o comportamento:

  • peça permissão para postar fotos dos seus filhos na internet ou WhatsApp

  • comente com seus filhos quando achar que uma informação sua é exposição demais (me ligaram pedindo o número da minha identidade, não vou responder)

  • mostre como você compartilha informações diferentes em meios diferentes (grupo da família versus grupo da escola versus grupo do trabalho)

  • pergunte aos seus filhos o que é importante para eles ser “privado” e cumpra o que eles pedirem (não comentar com seus amigos sobre o namorado da filha, por exemplo).


Realce o lado positivo

A maioria da educação sobre tecnologia foca em o que a criança não deve fazer, e as terríveis consequências que a esperam. Junte isto à rebelião comum dos adolescentes, e você tem uma receita para o desastre.

É muito mais eficiente e prático oferecer conselhos de como navegar neste mundo digital de forma segura, aproveitando todas as experiências positivas.

Por exemplo, experimentem juntos “visitar” lugares do mundo todo, ou comprar livros de forma instantânea, ou encontrar pessoas com os mesmos interesses. Novamente, modele o seu comportamento.


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Compare o Digital com o Real

A maioria das crianças percebe claramente quando algo não está sendo adequado no mundo real. Fechar portas, evitar que adultos vejam sua roupa de baixo e não falar com desconhecidos são exemplos de regras que crianças de 4 anos já reconhecem e cumprem.

Entretanto, eles não tem a mesma experiência com o mundo digital. As crianças não tem acesso ao comportamento dos pais no mundo digital, então não tem uma referência clara do que é ou não apropriado.

A estratégia neste caso é fazer paralelos, onde a internet é a “rua”:

  • Você conversa com estranhos na rua? Não? Então não deveria conversar com estranhos na internet.

  • Você mostra suas fotos para todos na rua? Então não deveria postar suas fotos em locais públicos.

Uma forma interessante de mostrar o efeito de insultos e linguagem inapropriada, é pedir que as crianças leiam em voz alta para outra pessoa o que querem escrever. Um comentário em uma página ou tweet agressivo será muito mais agressivo falado do que apenas publicado na internet.


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Encoraje a imperfeição

Adultos geralmente só mostram seu melhor lado online. Postamos as férias maravilhosas e as festas incríveis, mas não as tardes de tédio vendo séries velhas no Netflix, ou os dias de doença.

Desta forma, encorajamos as crianças a entenderem que o único lado que pode ser visto é aquele que será admirado pelos outros. Isto encoraja as crianças a esconderem seus medos, suas fragilidades e suas dúvidas. Ou, ainda pior, a mentirem sobre como se sentem e se comportam.

Ferramentas online diferentes servem para audiências e sentimentos diferentes. Mensagens de texto/WhatsApp para os amigos íntimos, Instagram para os conhecidos, Facebook para a família e escola, por exemplo. É importante lembrar que tudo que for postado é para sempre, e pode ser compartilhado com outros. Fotos íntimas, piadas ofensivas e agressões são sempre uma má ideia.

Mas não devemos ser super-protetores. Conteúdo que seja só bobo ou sem graça para os adultos pode ser extremamente importante como forma de solidificar amizades ou identidade de grupo. Definir regras diferentes e claras para cada ambiente e seguí-las é o mais importante. 


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Compartilhe com carinho

Geralmente nos preocupamos com dois lados de uma mensagem no meio digital: quem escreve e quem lê. Mas atualmente o principal agente de divulgação e crescimento da informação é o compartilhamento.

Precisamos desenvolver um senso de responsabilidade não apenas pelo que criamos, mas pelo que compartilhamos. Senso crítico, sobre se a informação é verdadeira e relevante, e quais as razões que temos para compartilhá-las.

Algumas razões boas para compartilhar são:

  • Esta mensagem ajuda um grupo de pessoas

  • Esta mensagem é engraçada sem ser ofensiva a nenhum grupo ou pessoa

  • Esta mensagem é informativa e verdadeira

Algumas razões boas para não compartilhar são:

  • Eu não tenho certeza se esta informação é real

  • Esta mensagem vai ofender/prejudicar um grupo que não concorda com minhas ideias

  • Esta mensagem não tem uma fonte conhecida

Por fim, devemos sempre lembrar sempre que a responsabilidade por uma notícia se tornar “viral” é muito mais de quem compartilha do que de quem cria.

Somos responsáveis pelo que criamos, compartilhamos e divulgamos.

VAMOS CONSTRUIR O FUTURO?


 

Referência:

[1] “Warning Kids About Digital Privacy Doesn't Work. Here's What Does.” Allen St. John. August 28, 2018. Visitado em 12/Setembro/2018 em https://www.consumerreports.org/privacy/kids-and-digital-privacy-what-works.


 

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