Na Just CODING e nas nossas escolas parceiras temos contato com dezenas de jovens de 5 a 17 anos todas as semanas. Em tempos de jogos e seriados de TV que supostamente induzem adolescentes a cometer crimes contra outros ou contra si mesmos, em tempos de dominância do mundo digital sobre nossas vidas e sobre a vida de nossos filhos, sentimos necessidade de refletir sobre esses assuntos. Refletir pessoalmente, refletir com nossos filhos, refletir com nossos alunos e, quando possível, levar um pouco dessa reflexão aos pais destes jovens.

CAUSA OU CORRELAÇÃO?

"Correlação é quando duas coisas acontecem juntas, mas uma não causa necessariamente a outra. Ou as duas são causadas por algo em comum, ou são completamente independentes e é apenas uma coincidência que aconteçam juntas." 

Inicialmente, temos que dizer que sim, infelizmente, jovens de suicidam todos os dias em todas as partes do mundo. Sim, muitos desses jovens estavam jogando um jogo eletrônico ou assistindo um seriado na TV no dia que decidiram acabar com suas próprias vidas. 

Mas muitos deles também tomaram uma lata de refrigerante ou comeram um chocolate neste dia. Correlacionar suicídios de jovens a qualquer uma dessas atividades é algo que precisa ser feito com cautela e análise estatística, e não foi isto que ocorreu nos últimos dias nem com o jogo "Baleia Azul" e nem com o seriado "13 Reasons Why". 

Ainda que, eventualmente, seja possível correlacionar aumento em índices de suicídio com esse jogo ou essa série de TV, será preciso aguardar para ter números confiáveis em mão.

O PAPEL DA MÍDIA E NOSSO PAPEL NO COMPARTILHAMENTO

Mas a internet não espera. Facebook, Twitter, WhatsApp, Instagram e outras mídias sociais tem pressa de "viralizar" qualquer notícia que apele para nossos medos e inseguranças mais profundos. Os veículos de comunicação mais tradicionais, que gostaríamos que fossem sérios e confiáveis, muitas vezes funcionam do mesmo jeito: se a notícia está aí e gera "tráfego" ela será divulgada o mais rápido possível para "dar o furo" antes dos concorrentes.

Ainda que muitos dos veículos de comunicação utilizem expressões como "aparentemente" ou "supostamente" ou "parece estar relacionado a", grande parte do público não se preocupa com esses detalhes e rapidamente passa a notícia adiante! Afinal "eu vi essa notícia na emissora X" ou "ouvi na rádio Y" deveria nos dar credibilidade, certo? Infelizmente, errado.

O que nos dá credibilidade é divulgar informações checadas, úteis e relevantes para nosso círculo social. De outra forma, seremos apenas mais uma engrenagem nessa máquina de fabricar "likes" e "shares" para anunciantes.

QUANDO A CONEXÃO É BENÉFICA

A boa notícia é que também foram divulgados e compartilhados muitos textos lúcidos nos últimos dias sobre este tema (ver algumas sugestões abaixo). Muitos pais, mães, psicólogos e educadores se posicionaram dizendo que a "Baleia Azul" e "13 Reasons Why" são apenas a última "novidade" assustadora do momento, mas que não podem ser acusados de causar uma onda de suicídios e comportamentos auto-destrutivos.

Vários falaram sobre o isolamento dos jovens, sobre o frágil ou inexistente vínculo entre pais e filhos e sobre como pontes precisam ser construídas de forma a manter abertos importantes canais de comunicação dentro das famílias. 

Canais que farão com que filhos não tenham receio em contar para o seus pais sobre suas frustrações, sobre convites suspeitos que recebem pelo WhatsApp ou Facebook, sobre o colega que fez algo humilhante ou raivoso ou claramente inapropriado. 

Não é com interdição ou proibições que temos que nos preocupar e sim com a construção de caminhos, de diálogo, de amor, de respeito e de cumplicidade. 

"Jamais conseguiremos estar com nossos filhos o tempo todo e a única maneira de conseguir com que ele façam longe de nós o que fariam se estivessem conosco, é criando e fortalecendo o vínculo amoroso. A ideia de que "o que é certo é certo, mesmo que ninguém esteja vendo, e o que é errado é errado, mesmo que todo mundo esteja fazendo" só será internalizada por nossos filhos se eles tiverem bons modelos, um forte vínculo familiar e uma auto-estima saudável." 

Nós temos certeza que a tecnologia trouxe e trará coisas maravilhosas, mas educar a nós mesmos e a nossos filhos para fazer bom uso dessa tecnologia não é tarefa simples.

POR ONDE COMEÇAR?

Precisamos conversamos com nossas crianças e jovens sobre:

  • filtrar informação - algumas fontes são mais confiáveis que outras. Na Just CODING discutimos com todos os nossos alunos quais sites são apropriados, qual o comportamento esperado deles na internet e como se proteger.

  • ser crítico com o que escuta e recebe - Na Just CODING treinamos nossos alunos a questionar quais os interesses por trás de quem está divulgando uma informação, a buscar conhecer os diversos argumentos em torno de um tema e a tentar averiguar qual a probabilidade de uma notícia ser verdade.

  • ser cauteloso com o que divulga - Na Just CODING ensinamos aos alunos a só repassarem conteúdo após terem checado a origem/veracidade, citando a fonte original sempre que possível; não serem desrespeitosos com outras pessoas; a protegerem o direito a privacidade, seu e de outros; a não conversarem com estranhos. "Se não se deve fazer na rua, não se deve fazer na internet".

Precisamos aceitar que nossos filhos serão, eventualmente, vítimas e algozes de seus pares e que, em algum momento, eles terão contato com conteúdos e vídeos inapropriados, material contendo pornografia, misoginia e preconceitos diversos.  Por tudo isso, precisamos nos tornar bons modelos sobre:

  • quando deixar o celular, os e-mails e as mensagens de lado.
  • como interagir com pessoas de verdade, olhando para elas, sabendo seus nomes e nos interessando pelo que tem para nos contar.
  • como ouvir uns aos outros, começando dentro de nossa própria casa.

E principalmente, precisamos fazer o que nós da Just CODING tentamos fazer com esse post: refletir, dialogar e pensar em formas de construir um mundo melhor. 

"There is no single effort more radical in its potential for saving the world than a transformation of the way we raise our children." Marianne Williamson
Não há nenhum outro esforço mais radical em seu potencial para salvar o mundo do que a transformação da forma como criamos nossos filhos.

Sugestões de leitura e vídeos:

  1. Para dois textos lúcido sobre o Baleia Azul leia "http://emais.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/a-lenda-da-baleia-azul-ou-como-uma-noticia-falsa-traduz-um-perigo-real/" e "http://carlosorsi.blogspot.com.br/2017/04/baleia-ou-barriga.html".
  2. Para uma pesquisa bem feita sobre o tema leia (em inglês): "http://www.snopes.com/blue-whale-game-suicides-russia/".
  3. Para um texto de 2016 relacionado a jovens, jogos e isolamento: "http://www.asomadetodosafetos.com/2016/11/os-filhos-do-quarto-um-texto-que-viralizou-na-rede.html"
  4. Para uma reflexão sobre os maléficios da série de TV para jovens com tendência a depressão, recomendamos: "http://cinemaemcena.com.br/critica/filme/8367/os-13-porqu%C3%AAs" e "http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2017/04/10/internas_viver,698536/psiquiatra-faz-13-alertas-sobre-a-serie-13-reasons-why-da-netflix.shtml". 
  5. Para uma bonita reflexão sobre vínculo entre pais e filhos: http://www.cangurubh.com.br/post/uma-licao-de-filho-para-pai-em-tempos-de-baleia-azul
  6. Para um ótimo vídeo sobre "millennials" e tecnologia, recomendamos "https://www.youtube.com/watch?v=mhqicmaj4cQ".

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